9 de dezembro de 2006

Por um jornalismo mais democrático

Após a abertura de um seminário na Colônia de Férias dos Químicos, em Praia Grande, uma das assessoras do sindicato dos trabalhadores do setor foi passear na praia e quando voltou do passeio percebeu que havia pisado em fezes. Para uma pessoa comum, seria só lavar a sandália. “Mas para nós, jornalistas, a responsabilidade só tinha começado. No dia seguinte, a jornalista foi à praia e viu, com a maré baixa, que a cidade não tinha sistema de tratamento de esgoto doméstico. Ele era lançado diretamente no mar”.

Quem lembra da historia é o jornalista Sérgio Gomes, fundador, juntamente com outros profissionais, do jornal Sol e Alegria, que teve sua primeira edição em agosto de 1988. A luta contra a despoluição das praias, no entanto, começou oito anos antes de surgir a publicação.

Gomes relembra que, quando retornou a São Paulo, a primeira coisa que fez foi entrar em contato com a Cetesb. Ele, então, descobriu que as praias de Praia Grande estavam impróprias havia 3 anos. A Folha de S. Paulo publicava a balneabilidade das praias de todo o litoral, menos ade Praia Grande. “Eu fiz uma carta para o jornal questionando por que a balneabilidade deste município não era publicada, já que esta era a praia da classe trabalhadora”.

O jornalista diz, ainda, que a imprensa da Baixada Santista não dava atenção ao caso. “Fiquei espantado, porque é um assunto que tem interesse para a região, mas
isto não era noticiado. Isso era uma vergonha, porque a classe trabalhadora tinha direito ao lazer sem colocar a saúde em risco”.

Indignado, Sérgio levou todos os dados que conseguiu apurar na Cetesb para Aloíso Nunes de Ferreira Filho que na época era presidente da comissão de Meio Ambiente da Assembléia Legislativa. “Ele disse que iria enviar ofícios para saber o porquê daquela situação. Mas eu sabia que aquilo não mudaria se ficasse no papel. Propus, então, que fizéssemos uma reunião com as colônias de férias de Praia Grande para produzir um dossiê com os dados sobre a poluição das praias e um vídeo para apresentar a ele. Depois, nós passaríamos a divulgar o vídeo com o intuito de chamar a atenção para o problema e dar um fim definitivo na questão”.

Mas, no fundo, o jornalista sabia que só isso não seria suficiente para criar uma grande mobilização. Para acabar com a poluição, era necessário fazer mais, ou seja, era preciso conscientizar a população sobre a importância da preservação das águas.

Nascia assim, em 1988, o jornal Sol e Alegria que tinha como proposta não deixar a discussão sobre a despoluição, literalmente, morrer na praia. Além disso, a publicação apresentava matérias sobre o que os governos estadual e municipal vinham fazendo a respeito da despoluição e o que o munícipe e as colônias de férias podiam fazer para contribuir com a melhora da qualidade da água.

Era um engano pensar que os problemas estavam ligados apenas à poluição e às perdas
econômicas da cidade. Segundo Gomes, a praia estava abandonada por completo, nem salva-vidas existia. Conforme uma pesquisa realizada na época, mais de 200 pessoas morriam afogadas por ano no município.

Motivação

Apesar das dificuldades, Sérgio Gomes seguiu em frente. A vontade lutar aumentou ainda mais após ele encontrar um dos seus colegas do sindicato vivendo em condições precárias por causa dos problemas em Praia Grande. “Eu estava passando e vi um trabalhador sindicalizado, que eu conhecia, morando embaixo de uma ponte. Parei o carro e fui até ele para saber o havia acontecido. Ele me contou que o irmão dele morreu afogado na praia, porque não havia salva-vidas. Ele teve que gastar muito dinheiro com o enterro, fez um empréstimo, não teve como pagar e, com isso, foi obrigado a vender o barraco e morar embaixo da ponte. Eu não tinha me dado conta de que um afogamento podia levar uma família a viver em condições desumanas. Era inadmissível ver o que estava acontecendo na cidade e ver que ninguém fazia nada. Enquanto no Guarujá tinha salva-vidas até com jet ski, em Praia Grande não tinha nem bombeiro”.

Indignado com o que havia acontecido com este trabalhador, o jornalista foi até o secretário de Segurança Pública, que na época era Luiz Antonio Fleury Filho (depois, governador), com um dossiê no qual constava o número de mortes por afogamento em Praia Grande. “A partir disso, surgiu a Operação de Verão, que consistia em colocar salva-vidas em pontos estratégicos e impedir que mais pessoas morressem. Com essa medida, o número de afogamentos caiu de 200 para 50 pessoas por ano”.

Gomes explica que o jornal Sol e Alegria conseguiu alcançar seus objetivos, porque não só noticiava o problema, mas também cobria as negociações e cobrava os resultados. “A existência do jornal, com periodicidade, possibilitou os resultados que temos hoje. Nós articulamos com o Executivo, o Legislativo e os sindicatos, por isso funcionou”.

Para Sérgio Gomes, é desta forma que o jornalismo deve ser feito. Embora muitos acreditem que este tipo de jornalismo engajado está, geralmente, associado a partidos políticos e é parcial, ele explica que “é impossível fazer alguma coisa de sentido social sem mostrar a política”. “Tem que saber como a sociedade está, ter noção política, saber do Legislativo e dos outros poderes. Jornalismo Social eficaz tem que ter uma visão política, mas uma coisa é política e outra são os partidos políticos. É preciso separar as coisas para não desmerecer o trabalho de outros jornalistas que trabalham com o social”.

O dever do jornalista, diz Gomes, é informar e garantir que o povo tenha instrumentos para decidir e ver que não está sendo enganado. Por isso, é preciso saber quais são as aspirações da população e escrever de uma maneira que ela compreenda a importância da informação. “Precisamos ter capacidade de mobilização política. A imprensa não publica as injustiças contra o povo. Se morrer alguém em Moema, é uma grande repercussão. Já no Jardim Ângela não vai nem ser noticiado”.

Para mudar esta realidade, Sérgio Gomes considera necessário que haja mais engajamento por parte da mídia. E para que a cobertura de temas sociais se torne freqüente, ele defende a democratização dos meios de comunicação. “Criar meios próprios é a solução. Pegue um ônibus e vá até os acampamentos do MST. Vá lá e faça uma reportagem, veja se realmente é o que se noticia. Isso é jornalismo social e politizado”.

Sérgio Gomes diz que as grandes redações só tratam da temática social, principalmente de movimentos populares, de vez em quando e de forma “folclórica”. Por isso, para que as pessoas passem a conhecer os “Brasis” que existem no nosso País, o jornalista tem que se empenhar mais. “Quando você vai aos lugares, fotografa, mostra as dificuldades, revela situações, mostra os paradoxos, os desafios e as dificuldades, a realidade, as contradições, as esperanças, isso é que é capaz de mobilizar as pessoas”.

2 comentários:

Anônimo disse...

Se todos nós, jornalistas, publicitários, ambientalistas, pessoas comuns, tivessem a mesma idéia em simplesmente em pisar em fezes e mudar um pouco do nosso meio. Não digo como um todo, mas um pouco poderíamos sim, mudar a sociedade e os conceitos. Imaginem só pisarmos em fezes e criarmos um tratamento especial para o esgoto, Isso é fantástico!! Um bom incentivo para a sociedade pensar e não só reclamar sem mudar nada ao seu redor.
Parabéns uma excelente matéria de incentivo a preservação do meio ambiente....

ALTINO MACHADO disse...

Bianca e Michelle estão convidadas a vir ao http://altino.blogspot.com/.

Abraco

Altino