5 de abril de 2007

Responsabilidade em Pauta!

A jornalista Patrícia Saito durante um dos seminários que ministra pelo Brasil.

A jornalista Patrícia Saito, coordenadora da Rede Ethos de Jornalistas, do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, desde a época da universidade se viu envolvida com temas relacionados à área social. “Fui uma das finalistas da Semana Estado de Jornalismo, com matéria sobre a preocupação de uma usina de açúcar em alfabetizar seus funcionários. Depois disso, percebi que poderia ter um papel no jornalismo que fosse além do profissional e que pudesse ajudar as pessoas, a sociedade”.

Patrícia trabalha na capacitação de jornalistas na temática da responsabilidade social. “A Rede Ethos de Jornalistas é um projeto que existe desde 2000 e cujo objetivo é a aproximação do profissional que atua em veículos de comunicação com um conceito ligado à transformação na gestão empresarial”. Além disso, ela destaca a importância da formação do profissional para despertar o interesse por questões sociais. “Acredito que as universidades poderiam ter disciplinas, ou cursos específicos, que tratassem desse tipo de temática e/ou a correlacionassem com o cotidiano dos estudantes. O que acontece é que o jornalista não consegue relacionar uma reclamação sobre o mau atendimento de uma empresa de telefonia, por exemplo, com a responsabilidade social empresarial. E tem tudo a ver. Se prestarmos atenção, este tema pode ser encaixado em qualquer editoria dos jornais, porque tem a ver com o dia-a-dia das pessoas”.

Para a jornalista, a mídia tem dado espaço para o tema. “Hoje em dia, isso é visível. Podemos observar que houve crescimento na cobertura do tema, mas ele ainda carece, em alguns casos, de maior aprofundamento”.

Para quem duvida da relação entre responsabilidade social empresarial e sociedade, Patrícia Saito explica que as reportagens não só servem como fonte de informação para a sociedade, mas também para cobrar e acompanhar o comportamento empresarial. “É importante que a mídia tenha esse papel duplo: questionar as práticas ruins e disseminar as boas”.

Conforme Patrícia, na tentativa de dar um panorama geral de como a mídia trata da Responsabilidade Social Empresarial nas pautas, o Instituto Ethos publicou um livro que analisa o tema. No livro Empresas e Imprensa: Pauta de Responsabilidade o leitor encontra o resultado de uma pesquisa que analisou 54 dos principais jornais do País no período de agosto de 2003 a setembro de 2004. Na entrevista abaixo, você encontra mais detalhes desta pesquisa do Instituto Ethos.

Como a mídia entende e pauta o conceito de Responsabilidade Social Empresarial?

Destaco, especialmente, três delas. Primeiro, a abordagem da Responsabilidade Social Empresarial (RSE) ainda é predominantemente factual, ou seja, 76,6% das matérias apresentam uma contextualização primária do assunto. Segundo, o tratamento editorial está voltado para a repercussão de eventos - 26,3% do material analisado chegaram aos jornais em função da repercussão desses acontecimentos. E em terceiro há ausência de um olhar crítico: 96,3% dos textos não questionaram dificuldades na consecução de práticas de responsabilidade social.

Qual o papel do jornalista ?

O jornalista tem um papel fundamental para fazer avançar a RSE. Criamos a Rede Ethos de Jornalistas para capacitar o jornalista no tema, de modo que ele possa difundir informações sobre RSE; reconhecer as melhores e as piores práticas; estimular a inserção da pauta social; aplicar os critérios de RSE no veículo de comunicação em que atua; e perceber a relevância de seu papel profissional e ético. Acreditamos que, com informação e discussões constantes nas redações, podemos chegar a estes resultados. Temos hoje mais de 740 jornalistas cadastrados.

Como o jornalista pode atuar de forma responsável?

A Responsabilidade Social Empresarial é a forma de gestão que se define pela relação ética, transparente e solidária da empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona. Empresas socialmente responsáveis estabelecem compromissos públicos. Uma atuação socialmente responsável pressupõe discussão de dilemas e o estabelecimento de metas de curto e longo prazo voltadas para a transformação social.

Quais são os temas negligenciados pela grande mídia?

A publicação buscou levantar os temas mais e menos abordados de acordo com os Princípios do Pacto Global e os Indicadores Ethos de Responsabilidade Social. No caso do Pacto Global, há pouca cobertura de questões de corrupção, apenas 1,6% das matérias pesquisadas está relacionada a este assunto. A abordagem dos temas dos Indicadores Ethos está concentrada prioritariamente em comunidade (24,3%), em comparação com o último colocado: pouco se trata da responsabilidade social das empresas na cadeia de fornecedores (3,3%).

Os profissionais estão aptos a tratar do tema?

É possível perceber a ocorrência de um fenômeno de mão dupla. Há um número crescente de jornalistas com matérias aprofundadas que já contemplam a visão de Responsabilidade Social Empresarial como modelo de gestão. Por outro lado, em função da rotatividade característica da profissão, sentimos necessidade de investir num processo contínuo de capacitação nas redações, voltado para o aprofundamento da cobertura jornalística. A Rede Ethos de Jornalistas realiza periodicamente seminários de capacitação nos veículos. Nessa hora, a troca e o aprendizado são grandes e trazem para o Instituto Ethos as principais dificuldades do dia-a-dia dos jornalistas.

Quais são os avanços e as dificuldades nessa área?

A cobertura jornalística da RSE é ampla, mas necessita de aprofundamento e críticas. A mídia tem sido uma aliada para fazer evoluir o movimento, por meio de reportagens que disseminam boas práticas empresariais e denúncias responsáveis sobre maus exemplos. O Ethos reconhece a importância da mídia neste processo e não por outra razão decidiu fazer este diagnóstico sobre a cobertura do tema. É necessário esclarecer sempre as diferenças entre filantropia, Investimento Social Privado e responsabilidade social empresarial, e também envolver os veículos de comunicação, enquanto empresas, com o movimento. No caso da cobertura jornalística, os desafios são aprofundamento, diversificação de fontes, críticas, etc.

1 de março de 2007

Social na teoria e na prática

A essência do jornalismo é pautar questões que afetam a vida dos cidadãos com o objetivo de diminuir as desigualdades sociais, mas não é isso o que se tem visto na mídia. O que comprova essa afirmação é a ausência de editorias específicas ou de reportagens sobre o tema com uma periodicidade fixa.

A precariedade com que o assunto é tratado se justifica de diversas formas, pela mídia. As mais recorrentes são a falta de tempo do profissional, que muitas vezes tem de realizar mais de cinco matérias em um dia, o pouco incentivo dos editores, a falta de interesse dos leitores e a própria ausência de percepção e sensibilidade do repórter.

Para o italiano Umberto Eco, esse comodismo da imprensa não se justifica. “O silêncio não é protesto, é cumplicidade“, diz ele. O jornalista Alceu Luís Castilho, um dos fundadores da Agência Repórter Social, concorda. “A iniciativa cabe ao repórter. Não adianta reclamar que as pautas não entraram, se não foi feita uma tentativa. O espaço existe, porque o leitor demanda esse tipo de pauta, desde que a edição consiga perceber a conexão imediata com seu universo".

Da mesma forma que no passado dependia da iniciativa dos jornalistas a publicação de matérias criticando o governo militar, hoje para o social entrar na pauta das grandes redações também depende do repórter.

Na ditadura, havia um jornalismo politicamente engajado. Com a redemocratização, a luta principal da sociedade brasileira passou a ser contra as desigualdades sociais e, conseqüentemente, isso deveria se refletir no jornalismo. Mas o que vemos é o inverso, as matérias de cunho social ainda não encontram espaço e estão dispersas nas páginas dos jornais e no noticiário dos meios eletrônicos.

“Os anos 70 (que do ponto de vista da política começam em 1968) foram os chamados Anos de Chumbo. Foi quando a ditadura chegou ao auge, sofisticando seus mecanismos de repressão e aprimorando seus sistemas de censura e tortura. A questão política se sobrepunha à questão social - e o jornalismo acompanhava, tendo, evidentemente, muito mais preocupações políticas do que sociais. Com a democratização, isso mudou, sim, mas o jornalismo não acompanhou“, conta o jornalista Zuenir Ventura, autor do livro '1968: O Ano que Não Terminou'.

Ele continua: “Nos anos 90, quando escrevi Cidade Partida (escrevi em 93 e publiquei em 94), já era clara para mim e muitos outros a consciência da tragédia social que vivíamos. Sem ter a intenção, acabei retratando, em 1968, uma geração excluída politicamente e, em Cidade Partida, uma geração excluída socialmente“.

O pensamento de Zuenir é corroborado por Eugênio Bucci no livro Sobre Ética e Imprensa. "A notícia não é apenas uma novidade, é uma novidade que altera o arranjo dos fatos, poderes ou idéias em algum nível. Ela incide, portanto, sobre as relações humanas: ela é socialmente notícia". Por causa da dimensão da notícia, o social deve ser priorizado.

Para o jornalista Fábio de Castro, que defendeu dissertação sobre o tema na Sorbonne (Paris III), muitos profissionais argumentam que o conceito de jornalismo social se enquadraria em todo jornalismo, tendo em vista que todo tema tem implicações sociais. “Todo jornalismo também está ligado a questões econômicas e políticas, porém isso não impede que existam editorias de jornalismo econômico e político“.

Muitos acreditam que o social é maniqueísta, ou seja, torna os jornalistas da área 'heróis' e desvaloriza o trabalho de repórteres que não dão enfoque ao tema. Os críticos, contudo, não percebem que a discussão vai além, já que não importa quem está certo ou errado.

A própria universidade não incentiva o engajamento social dos futuros repórteres. A professora Cremilda Medina de Araújo, da Escola de Comunicação e Artes da USP, afirma em seu livro Profissão Jornalista: Responsabilidade Social que em muitas universidades predomina a crítica de origem sociológica, reafirmando-se como incontestável a luta entre o bem e o mal. Para a autora, um fato é indiscutível: o papel de interação social da comunicação.

Para Carlos Alberto Vicchiatti, doutor em Comunicação pela PUC, o papel social do jornalista é fazer o cidadão refletir e almejar uma mudança real e definitiva, evitando a superficialidade e a omissão, que só fazem aumentar as diferenças sociais. "O texto deve contextualizar o leitor, se preocupar com a sociedade na qual ele está inserido. Não se deve esquecer do ser humano". Para o professor, é necessário dar uma notícia calamitosa sem sensacionalismo. "A notícia é tratada como mercadoria, e como mercadoria adapta-se às leis do mercado". Vicchiatti afirma que o engajamento do jornalista é importante no aperfeiçoamento da sociedade.

A promoção e proteção dos direitos humanos no cotidiano dependem da atuação da imprensa. Historicamente, em diversos países, os avanços em relação à agenda dos Direitos Humanos estão diretamente associados à prática do jornalismo investigativo, responsável não apenas por denunciar violações desses direitos, como também por fortalecer o debate público em torno de formas de se garantir os mesmos.